à hora de almoço vi na televisão uma notícia sobre umas famílias que acolhem crianças "carenciadas" durante o natal. tive um breve diálogo comigo própria, mais ou menos assim:
"- pois, vão lá buscá-los, tudo muito bonito, nós partilhamos a nossa mesa nesta data tão especial com quem mais precisa, e a seguir toca a devolvê-los à procedência, para o ano há mais.
- estás a ser mázinha, se calhar é melhor para os miúdos passarem esta época numa casa normal do que nas instituições, é uma altura especial, etc...
- e a seguir voltam para as instituições a conhecer o que estão a perder durante o resto ano.
- ..."
agora, a dar uma volta aos blogs, encontro na
papoila este post:
O meu Conto de Natal
Os cabrões dos bonzinhos
Os miúdos "institucionalizados" vivem a sua vida à espera que alguém os vá buscar.
Mas buscar para sempre.
As famílias que os vão buscar no Natal, ou noutra data pontual, e depois os depositam novamente no lar, acabam por criar-lhes uma série de expectativas que vão sendo sucessivamente frustradas.
Estas crianças vão crescendo desestruturadas, com este desejo (por vezes verbalizado, por vezes não) que as famílias algum dia os queiram.
Porque, na realidade, sabem que isto não acontece. Sabem que quem “quer mesmo” não “faz assim”.
Estes miúdos sabem também que ficam bem no "arranjo" da noite natal. No meio de uma mesa farta, e de uma árvore cheia de luzinhas fica bem um desgraçado, pois então. Eles sentem-no.
Escusado será dizer que ao fim de anos neste registo emocional, qualquer reunificação vai ser muito difícil.
Portanto, se nós quisermos que a criança retorne a uma família, quer esteja numa instituição quer esteja em acolhimento familiar, o contacto familiar tem de ser a regra e nunca a excepção.
Por outro lado, há um aspecto que vai influenciar negativamente o processo de adaptação e mudança na vida das próprias crianças: quanto maiores transições elas têm nas suas vidas (entre centros de acolhimento, famílias boazinhas de vez-em-quando, e lares de infância e juventude) maiores são as resistências à mudança, e os distúrbios emocionais são igualmente maiores e crescentes.
...Ou seja: nenhuma família vai querer um adolescente assim!
Porque quando alguém tenta, verdadeiramente, acolher estas crianças, quando alguém quer, verdadeiramente, dar-lhes amor, o que elas vão fazer é pôr à prova esta família, fazendo-lhes a vida negra para ver se estes também vão desistir.
Feliz Natal, pois.
... pois...