(
post inspirado, não copiado,
neste outro
post - porque reconheci os receios e as incertezas.)
crescemos a copiar. copiamos os pais, o irmão mais velho, o primo, os colegas da escola. copiamos até sermos capazes de criar novas respostas para os problemas, as nossas próprias respostas, as que melhor encaixam na nossa personalidade. este processo de crescimento pode ser incentivado ou bloqueado. quem cresce com mais incentivos tem mais capacidade de resposta a novos problemas do que quem cresce com mais bloqueios e menos incentivos - mas atenção porque, às vezes, um aparente incentivo pode ser apenas um bloqueio disfarçado.
a capacidade de criação vem também, e sobretudo, da prática e do hábito. quando aprendemos a escrever, começamos por copiar o desenho das letras que a professora faz no quadro. desenhamos tantas vezes que um dia somos capazes de as desenhar sem olhar para o quadro. depois percebemos que há várias maneiras de desenhar a mesma letra e experimentamos copiar os diferentes estilos, até escolhermos um que nos parece o mais certo para dizermos quem somos. quando a técnica está interiorizada, deixamos de pensar no "desenho das letras" e a caligrafia passa a ser mais uma expressão da nossa personalidade.
transpondo esta ideia para a criatividade do mundinho do artesanato-
online, encontramos de tudo. uns já encontraram a sua expressão enquanto outros ainda copiam as letras escritas no quadro pela professora. mas as letras que a professora escreve no quadro não são consideradas "propriedade intelectual". então o que é que pertence ao seu autor e a mais ninguém? os materiais que usa? a forma? a combinação das cores? ou o objecto como um todo? que partes é que eu posso copiar sem roubar ninguém? algumas das queixas, que surgem regularmente em alguns blogues, têm razão de ser e penso que vale a pena denunciar os casos flagrantes mas, na maioria das vezes, são acusações vãs e infundadas. a "criatividade", que parece ser para tanta gente a questão fulcral, é uma palavra usada quase com o sentido de mediunidade - só aqueles que possuirem esse "dom" são dignos de exercer a "arte". mas se a criatividade é algo passível de se aprender, então está ao alcance de todos… e lá se vai o mercado dos
illuminati. ser "artista" deixa de ser um dom inato para passar a ser uma aprendizagem. se calhar há "artistas" que vão passar a vida a copiar e nunca hão-de encontrar a sua personalidade mas, quanto a mim, isso é um problema mais seu do que de qualquer outra pessoa.
quando comecei a fazer estas coisas de agulha não escondi a minha inspiração e, no entanto, debatia-me com a minha falta de "originalidade". um dia fiz algo um bocadinho diferente que, julgava eu, seria mais um passo no "meu" caminho. precisamente este passo tropeçou num comentário anónimo menos simpático que trouxe para a luz do dia as minhas inseguranças. desde essa altura já dei outros passos mas a confiança continua com muitos altos e baixos (mais baixos do que altos, na realidade). apesar disso sei que os bloqueios são meus, se estas questões me incomodam é primeiramente pela falta de confiança que tenho em mim mesma e pelo alto nível de exigência que ponho em muito do que faço. sei que quando descontrair o trabalho vai sair mais naturalmente e mais facilmente encontrarei a minha "criatividade".
muitas vezes as acusações que fazemos são projecções dos nossos medos. psicanálise, ioga, oração ou simplesmente um copo com os amigos, é o meu conselho para quem se sentir perseguido, plagiado ou copiado -
porque rebolar no lodo só serve para te sujares.
respondendo à pergunta do título - feio não é copiar e dizer que se copia, feio é deixar comentários anónimos, feio é dizer ao colega do lado "tens uma letra muito bonita", com a cortesia de quem julga ter uma letra muito mais bonita. feio é tirar o brinquedo da mão do outro miúdo, empurrando-o e dizendo: "é meu!", mesmo que isso seja verdade. feio é mentir, dar esmolas e não pagar impostos.
* título inspirado ou copiado dos anúncios "feio é fumar", porque - e isto é uma das poucas coisas que aprendi na chafarica de vão de escada… - na publicidade nada se cria tudo se pica ;)